29/05/2010

Cultura e identidade surdas

Qualquer estudo sobre as formas de lidar com a surdez carrega a perspectiva do autor sobre o tema. Surdos podem ser vistos como deficientes ou diferentes, dependendo da formação do autor.

Pesquisadores cuja origem são as ciências biológicas entendem que o surdo é um deficiente e, portanto, deve ser tratado, com o recurso da tecnologia, para que possa ouvir e falar.

No outro lado do campo, os estudiosos oriundos das ciências humanas defendem que o surdo é diferente, e assim, tem direito a uma cultura própria.

De acordo com os primeiros, características particulares, como a surdez, são consideradas desvios da normalidade, logo precisam ser corrigidas para evitar a discriminação e a não-integração à sociedade.

Seria de se esperar da família que compartilhasse com a criança a linguagem dos sinais e compreendesse sua importância para ela.

Preocupados com o futuro do filho, entretanto, a maioria dos pais de surdos tendem a escolher a linguagem audioverbal, em vez da língua dos sinais, como modalidade de comunicação da criança. Assim, além de mantê-la numa estrutura conhecida da família, afasta-a do "mundo surdo".

O implante coclear é outra tentativa de trazer a criança ao mundo “normal”, da audição e da fala. Além de não se conhecer com profundidade as conseqüências fisiológicas, psicológicas, lingüísticas e sociais, o implante não insere o surdo no mundo dos ouvintes, mas o afasta da comunidade surda. Ao usar o implante, a criança sofre a cobrança de ouvir e falar bem.

Um surdo que ouve através de implante deixa de ser surdo? Sua fala característica continua não sendo aceita e assim sujeita à discriminação.

A luta pelo direito à diferença busca dar à língua dos sinais o estatuto de língua própria e tudo o que ela representa (comunicação, pensamento, aprendizagem,etc.). Dessa forma, o surdo deixa de ser anormal e se torna diferente, com identidade social.

Defender a língua de sinais é garantir o direito do surdo de fazer parte de um mundo particular, com forma de expressão própria e isento de discriminação.

Segundo Ana Paula Santana em "Surdez e Linguagem" (2005):
"A defesa e a proteção da língua de sinais, mais que significar uma auto-suficiência e o direito de pertença a um mundo particular, parecem significar a proteção dos traços de humanidade, daquilo que faz um homem ser considerado homem: a linguagem"
Mas faz sentido falar em cultura surda, se a língua não é a totalidade da cultura?

Surdos e ouvintes de uma mesma comunidade são criados com valores, crenças, símbolos e modos de agir e pensar comuns. Surdos e ouvintes são elementos de uma mesma cultura. Defender uma cultura surda seria legitimar a desigualdade e a discriminação. Muitos surdos defendem a segregação com os ouvintes por se sentirem pressionados a escrever e falar bem por estes.

Considerar a língua como o elemento único que constitui e define uma cultura mostra que a discussão não é entre surdos e ouvintes, mas sim, acadêmica, que busca legitimar uma disciplina científica (no caso, a linguistica) como forma de "fazer ver e crer as divisões do mundo social".

Na prática, o surdo que se autosegrega corre o risco de deixar de lado sua identidade, enquanto cidadão participativo de uma comunidade, em troca de uma posição em uma discussão acadêmica, da qual está alijado.

Resenha de: CULTURA E IDENTIDADE SURDAS: ENCRUZILHADA DE LUTAS SOCIAIS E TEÓRICAS, de Ana Paula Santana e Alexandre Bergamo.
Disponível em http://www.cedes.unicamp.br/

3 comentários:

carol sakurá disse...

Muito bom!
Realmente,os surdos possuem linguagem e cultura próprias.
É um universo riquissímo,não deficiente,apenas diferente.
Bjs!

Marcio Hollosi disse...

Muito bem Carol,

Só corrigindo, os surdos possuem Língua prórpria que é a LIBRAS e Cultura.

Daniel Savio disse...

Mas surdez é um dos maus que acabamos sofrendo por vontade própria, só para não ter parametro do que é seguro para gente?

Por exemplo, quando jovens ouvem aparellhos com fone de ouvido e som alto e sem perceber que vai ficar surdo?

Fique com Deus, menina Luiza Dizioli.
Um abraço.